Aquele que procura faíscas...
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domingo, 15 de janeiro de 2012

Falta de Grandeza

“Foi de mesquinharia em mesquinharia, 
de pequena em pequena coisa, 
que finalmente as grandes coisas se formaram.” 
Michel Foucault
 
As meninas tinham de um tudo. Casa grande, cada qual com seu quarto e carro sempre do ano. O dinheiro nunca faltava e os passeios variavam entre balneários ensolarados e restaurantes da moda. Não chegava a ser uma vida luxuosa, mas era, com certeza, uma vida boa. E duas delas, pois moravam juntas sem os pais, que se aposentaram e foram morar de Cruzeiro em Cruzeiro: suíte com quarto separado, cama Queen size e varanda privativa. Na 'sala de estar' tinham até um bom sofá, decorada com restos da casa de campo! (Assim não precisavam nem de visitas, se entretinham com a população flutuante que entrava e saía do navio.)

E as irmãs assim viviam, cada qual cuidando de sua vida, mas sem cuidar muito da casa. Dentro da residência a competição era grande. Quem vai lavar a louça? Quem vai limpar a área de uso comum? As compras de mercado então eram o grande debate. Ninguém queria comprar alvejante para o lavabo da sala de estar. Contavam migalhas e vinténs apesar de serem ambas bem sucedidas e ainda ganharem mesada do avô abastado. Quem olhava de fora nada entendia.  Para quê tanta mesquinharia? Se pouco tivessem agiriam diferente? Com certeza as perguntas não eram fácil de responder.

Algumas mesquinharias mudam vidas, enquanto outras são facilmente esquecidas. Mas o acúmulo de pequenas mesquinharias é tão danoso quanto um copo de birita ao lado da cabeceira. O sujeito vai dormir embriagado e quando acorda dá aquela golada no copo de vodka aguada. E pior ainda é fumante apagando cigarro em lata de cerveja sem ao menos amassá-la para dar a impressão de usada. Vem um bêbado sedento e toma aquela coisa horrível, cheia de guimbas... Enfim. Ainda não há como saber o que pode acontecer com as irmãs, mas que a mesquinharia envenena a amizade, ah, isso já está acontecendo.
Para a seleção da Oficina Compartilhada

terça-feira, 31 de maio de 2011

Seria Deus um piadista?


Juntos criaram seis filhos. O marido era divertido e a casa, confortável. A aposentadoria forçada antes dos 60 anos não chegava a ser um problema: estava realmente cansada. No entanto, quando pensava nas viagens que costumava fazer e nos bons restaurantes que frequentava ficava com preguiça do dinheiro não estar sobrando. Tudo o que queria era uma chance para provar que dinheiro não traz felicidade. Quem inventou isso era um grande piadista, pensava. Assim como provavelmente Deus também deve ter, entre outras habilidades, a de fazer comédia.

Novela nunca foi seu passatempo predileto. E sentar-se na frente da TV por horas a deixava prostrada. Queria viver e não absorver vidas inventadas. De vez em quando encontrava os antigos amigos do trabalho em grandes almoços de domingo. Na maioria das vezes todos derrubavam garrafas de vinho ao som de muita fofoca. Também não queria mais fofocar. Queria viver e não discorrer sobre a vida alheia. Buscava no fundo do peito algo para lhe tirar da inércia, mas nada encontrava.

Os filhos, todos homens, tinham pena da mãe. Tinha tanta vitalidade que vê-la naquele marasmo cortava o coração. Nem os netos preenchiam aquele vazio que ela sentia. Não que ela não se alegrasse com eles, pelo contrário. Naquela altura eram realmente a única coisa que arrancavam risadas de seu humor oscilante. Quando não estava com os netos sua única companhia eram seus fantasmas. E a cada dia eles aumentavam mais: o tempo perdido jamais seria recuperado.

Para a seleção da Oficina Compartilhada