Aquele que procura faíscas...
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terça-feira, 31 de maio de 2011

Seria Deus um piadista?


Juntos criaram seis filhos. O marido era divertido e a casa, confortável. A aposentadoria forçada antes dos 60 anos não chegava a ser um problema: estava realmente cansada. No entanto, quando pensava nas viagens que costumava fazer e nos bons restaurantes que frequentava ficava com preguiça do dinheiro não estar sobrando. Tudo o que queria era uma chance para provar que dinheiro não traz felicidade. Quem inventou isso era um grande piadista, pensava. Assim como provavelmente Deus também deve ter, entre outras habilidades, a de fazer comédia.

Novela nunca foi seu passatempo predileto. E sentar-se na frente da TV por horas a deixava prostrada. Queria viver e não absorver vidas inventadas. De vez em quando encontrava os antigos amigos do trabalho em grandes almoços de domingo. Na maioria das vezes todos derrubavam garrafas de vinho ao som de muita fofoca. Também não queria mais fofocar. Queria viver e não discorrer sobre a vida alheia. Buscava no fundo do peito algo para lhe tirar da inércia, mas nada encontrava.

Os filhos, todos homens, tinham pena da mãe. Tinha tanta vitalidade que vê-la naquele marasmo cortava o coração. Nem os netos preenchiam aquele vazio que ela sentia. Não que ela não se alegrasse com eles, pelo contrário. Naquela altura eram realmente a única coisa que arrancavam risadas de seu humor oscilante. Quando não estava com os netos sua única companhia eram seus fantasmas. E a cada dia eles aumentavam mais: o tempo perdido jamais seria recuperado.

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domingo, 29 de maio de 2011

Frascos


Começou a conversa bem irritada, pois ainda pensava nos recalques dos outros. “E esse nariz aí, de onde saiu?”. E me contava que não entendia por que é que as pessoas querem sempre achar defeitos nos outros. Ou desculpas para o jeito que elas são. Uma outra vez tinha sido “Você usou aparelho?” E desabafava que não aguentava mais falar de si mesma ou ter que dar explicações para o jeito que era, o corpo que tinha, a vida que levava.

Se a bunda está dura demais é porque faz muita ginástica, se está mole demais é esculhambada. A unha funda e bem feita é postiça, e se não vai ao salão é largada... Magreza só pode ser bolinha e dentes brancos... capinha! E por aí vai. Não existe mérito, não existem elogios no mundo moderno. E muito menos respeito. A ordem do dia é “se recalcar e só esculhambar”. Assim sente-se melhor e não é preciso preocupar-se tanto consigo mesmo.

Ouviu o vizinho dizer que seu namorado era um caos. E ficou com um baita ponto de interrogação na cara, pois bastava ele se olhar no espelho pra ver que o caos era ele. A cara era feia e o pior, também tinha perna de alicate! E a colega do curso dois dias depois emendou: “O meu irmão perguntou o que minha amiga linda estava fazendo com um cara que era viado.” E assim seu namorado virou viado, pode?

Passando férias com uma amiga em sua terra natal a outra disparou: “eu não vou te levar pra festa porque Fulano me disse que você é atraente para qualquer homem, aí todo mundo só vai olhar pra você”. Disse que sorriu e entendeu. Fazer o quê? Pelo menos foi sincera.

Os anos se passaram e um belo dia chegou em casa, toda produzida. Era aniversário de casamento e ela caprichou no salão. Porém a única coisa que o marido reparou foi num fio de cabelo espetado no canto da boca. Irritadíssima pensou “assim não, dá um tempo!”. E saiu nas tamancas com o pobre coitado do marido inseguro, que de brocha passou a corno e teve que cantar de galo em outro canto, porque com mulher de bigode, ninguém pode.

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