Aquele que procura faíscas...

sábado, 26 de novembro de 2011




É aquele que fica, indisfarçável,
Colado na cara sem graça
Amarelo ovo, amarelo gema,
Amarelo farsa
E no desespero,
O portador nem disfarça
Veste o horror
E abraça a desgraça




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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Zzzzzzzzzzzzz

Não queria dormir de jeito nenhum. Lutava contra o sono com todas as suas forças e fazia pirraça na sala de estar. Quando já estava praticamente sendo arrastada para o quarto, o telefone tocou e correu para atender. Excelente desculpa para fazer um pouco mais de cera.

Era sua avó.

- Oi filhinha, tudo bem? É a vovó.

- Não quero dormir... (Disse, miando, a pequena.)

- É, filhota, tá meio cedo mesmo pra você dormir, né?

- Vó, não quero dormir... (O miado ficava ainda mais melado e ininteligível.)

- Vá pro seu quarto, querida. Obedeça à sua mãe. Peça à ela um filminho, assim você vai descansando até dar vontade de dormir. Que tal Alice no País das Maravilhas, que você adora?

- Huummm.... (E passou o telefone para o adulto mais próximo.)

Saiu da sala inconformada. Não estava com a menor vontade de dormir. Por que é que tinha que ir para o quarto? Por que não podia ficar ali mais um pouquinho? Estava tão divertido ouvir as conversas dos adultos na sala...

A mãe andava atrás dela, dando palavras de ordem: “Troque de roupa!”, “A camisola limpa está na cadeira!”, “Vai escovando os dentes enquanto eu vou pegar um pouco mais de vinho pro seu tio!”, “Não esqueça de...”. E ela se desligou do blábláblá, porque já não estava mais interessada. Queria ficar na sala, ou então nem daria ouvidos.

Vinte e cinco anos mais tarde o ocorrido veio à cabeça logo após ter colocado a pílula de melatonina na boca e ajustado o travesseiro entre as pernas - hoje também não estava com a mínima vontade de dormir. Não queria recorrer ao Rivotril, apesar da insistência médica. “Esses doutores hoje em dia não passam de traficantes de jaleco.”, pensava.

Que saudades tinha da sua avó.

Em busca de vestígios

João 8:7 = E, como insistissem, perguntando-lhe, 
endireitou-se, e disse-lhes: 
Aquele que de entre vós está sem pecado 
seja o primeiro que atire pedra contra ela.
 
Minha cabeça cai num abismo e uma das outras assume o controle. Quem é essa? Me pergunto no dia seguinte... Tento buscar alguma fagulha de pensamento no fundo do poço e só o que vem é a frase do pobre coitado, pensando alto "Você é muito linda, o beijo que você me deu...".

É claro que ele não estava entendendo nada. Eu também não estava...

O que uma garota como eu estaria fazendo com aquele estranho num motel barato da Praça Mauá? Provavelmente fugindo. De mim... Dele...

A primeira vez tinha classe. Acordei em Laranjeiras, piano ao longe... Longe?!?!? Não!! Bem perto. Ele parou de tocar, disse que tinha café, e eu atordoada só conseguia dizer que estava atrasada - e estava mesmo, era a estréia do meu primeiro projeto solo. Quando eu voltei do banheiro ele perguntou: 

- Você perdeu alguém?

- A gente vive perdendo, né? 

- Ontem você estava correndo risco de vida...

- Você é um anjo... Como é que eu faço pra ir embora?

- Você está em Laranjeiras, é só descer.

- Obrigada...

- Tchau....

Podia ser pior, e acabou sendo. Praça Mauá, sem o menor vestígio de memória. Eu já perdi alguém e deste jeito vou acabar me perdendo também.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Top Dream

Essa semana tive um monte de gente do passado pipocando nos meus sonhos. Eu nunca achei que meus sonhos tivessem significado prático algum. Às vezes sonho algo relacionado ao que pensei ou vivenciei durante o dia, o que é quase uma auto indução. Outras, fantasmas enterrados surgem do abismo silencioso sem aviso prévio.

E nesse vai e vem de vivos mortos o que acaba acontecendo é que no meio do dia você se lembra do sonho e acaba filosofando um pouco mais sobre sua vida - o que na maioria das vezes é uma perda de tempo. O top dream da semana foi o o casamento simbiótico com a pessoa que eu mais amei na vida. Mais do que a mim mesma, e por isso deu no que deu.

Em vez de sermos duas pessoas inteiras se relacionando, viramos duas meias pessoas com projeções. E o que antes era um casal, virou uma pessoa só. Mais ou menos isso. Acontece com a maior parte dos casais em maior ou menor grau, e no meu caso o grau foi extrapolado. Calamidade privada na certa. Uma tristeza.

Acabei buscando, mais uma vez, informação sobre relacionamentos simbióticos e achei um blog muito interessante. Lá, a doutora dizia que tem solução, embora afirme que seja mais fácil falar do que fazer. “Mas é só achar dentro da gente aquele lado que está perdido e recuperá-lo. Voltarmos a sermos um indivíduo por inteiro.”, afirma a médica.

E nesse momento existencialista cheguei à conclusão que nossos momentos de amantes eram mais sinceros. Ele estava comigo, eu estava com ele. E não havia mais nada lá fora. A partir do momento em que nos tornamos além de amantes, sócios, marido e mulher, além de melhores amigos e 'parceiros no crime', a coisa desandou.

É... Não dá pra ter tudo na vida…. Já dizia o sábio... E num relacionamento, não dá para ser tudo um do outro. Tem que, primeiro, ser inteiro.

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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Antes que seja tarde

Hoje acordei apagada. E a vontade de ficar o dia inteiro na cama foi grande. Se ainda estivéssemos juntos seria um daqueles dias de se tomar licor ou porto. Na tentativa de tirar o amargo da alma, o mais doce ajuda, e o efeito é o mesmo.  Essa vontade é rara, mas quando vem não sai logo. Se arrasta pela tarde e avança a noite - e se bater insônia ainda vara a madrugada. E tudo fica com essa névoa, essa fumaça, do que um dia foi vivo, vibrante e num suspiro ofegante morreu. 


No meio desse luto percebo que mais um outubro fica para trás. Um outubro atípico. Um outubro pensante e não festejante como todos os outros. O primeiro a dar sinais de cansaço dessa vida tola. E lendo o texto do dia ele aconselha “Vive intensamente.”. Mas não é isso que eu faço? Por que então um certo dia acordo sem cor, cheiro ou sabor? Na tentativa de alegrar o cenário pinto as unhas de vermelho. Sangue. Para provar que sou feita de carne, além do osso insosso. E que me importo. A indiferença não tem cor,  nem sabor. Todo o resto é sim.


Levanto-me e preparo um chá. No armário, camomila, verbena ou hortelã? Hortelã, sem pestanejar. 


Se encontros marcados realmente dessem frutos eu teria tido uns 12 namorados nos últimos anos. Mas não. E é aí que você percebe o quão equivocados estavam seus amigos. Não te conhecem nada. E muito menos os possíveis pretendentes. Ensimesmados querem apenas mais um casal para compartlhar suas chatices a dois. Como é irritante juntar-se à casais em programas coletivos. Você não só abre mão da sua individualidade para tentar dar certo com a pessoa escolhida, como também ainda tem que lidar com os caprichos dos outros demais. 


Ai, gente chata. E eu já não disse que acordei apagada? Apagada e chata também. Que o dia acabe logo, antes que a garrafa chegue ao fim.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Carta da solidão


Eu sei que vc está vivendo sua vida, mas tem expectativas que um dia a gente volte a dar certo. Isso fica cada vez mais difícil de alimentar em mim. Quero ser fiel ao que é realmente importante e ser inteira. Na vida existe fatalidade e também sintonia. Basta termos atração para que comece a afinidade e o resto aconteça. Tudo o que vivemos foi muito, muito especial porque estávamos totalmente sintonizados.
Creio ser impossível reconstruir e manter uma relação à distância, mesmo que nos tornemos mais cuidadosos, como você gosta de dizer. Dois anos é muito tempo e já estamos fora de sintonia no momento, imagine nos vendo apenas ocasionalmente? Eu quero companheirismo e cumplicidade. Por mais que acredite nos seus sentimentos e tenha superado todas as mágoas, sei das minhas fraquezas e não tenho condições de viver ½ de uma vida, sendo que a outra ½ é cheia de incertezas, agravadas pela falta de convivência.
Estamos muito distantes faz tempo, e o que vc tinha receio (de nos tornarmos estranhos) já está acontecendo em um campo muito sutil, mas muito, muito importante pra mim, que é o da intimidade. Este é muito difícil de conseguir sem ter uma vida em comum e cada vez que fico como no momento em que estou agora me coloco em uma das piores situações em que poderia me encontrar.
Hoje em dia eu me compreendo muito mais e ignorar meu mundo íntimo é voltar atrás no meu processo de autoconhecimento que têm sido muito, mas muito doloroso. Sofro de fadiga, medo e doença. Entro num processo psicossomático, totalmente desorganizada emocional e psicologicamente. Caio de cama e fico totalmente sem energia. Junte-se a isso o fato de não poder contar com ninguém, o que me causa uma ansiedade ainda maior. Falta quem me ajude nessas horas, alguém que partilhe da minha intimidade, das minhas frustrações, me conforte e me encoraja.
Relacionamentos ocasionais em encontros festivos não constróem base sólida para o convívio diário. Se daqui há um mês você ficar com saudade e me escrever “Preciso falar-lhe.” existe uma chance enorme de eu ceder, como das outras tantas vezes, mas aí o ritual é o mesmo: momentos de festa de muita sintonia, planos ilusórios para um futuro incerto e um dia a dia de muito, muito sofrimento.
Não entremos nunca em maiores detalhes, pois sabemos como apenas a simples suposição dói. O medo de sermos agredidos verbalmente ou ameaçados moralmente também já passou. Tenho a certeza de que já superamos. Nosso crescimento interior fez com que olhemos pra frente, perdoando o passado e respeitando a realidade um do outro, apesar do nosso diferente nível de amadurecimento.
Agora precisamos ser inteiros. E ter muito, muito respeito com as possibilidades e a individualidade. Limites para não invadir a privacidade e transgredir os territórios emocionais sem termos o menor direito à isso. Eu preciso agora do meu limite, para poder conquistar coisas maiores e alcançar o mínimo de equilíbrio. Já machuquei bastante a mim, a ti e à minha família e amigos com meu descontrole.
Nesse meu momento existencialista enxergo que a vida vivida na consciência oferece mais segurança e controle do que a vivida na inconsciência. Somos livres para escolher os caminhos que vamos tomar e assim sendo somos escravos das consequências...
Não adianta o paliativo de planos incertos. A decisão que tomei foi muito bem pensada e levou em consideração esta reclusão, este distanciamento total do meu campo confortável para ter um momento de profunda reflexão e discussão dos meus valores para poder ser uma pessoa mais feliz com as minhas escolhas.
Tem dias de muita, muita solidão.
Amadurecimento é o que eu preciso.
Harmonia.
Ouvir a voz da própria alma.
Sentir, questionar e refletir.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mundo Inventado






Eu sei que a vida deu uma volta enorme. Mais do que isso, eu sei. Mas eu sei também que comi cada cheiro de poeira que passou pelo meu caminho. Eu quis te dizer isso o tempo todo e quis também demonstrar, sem sucesso - pois ao mesmo tempo fugi de medo. Pavor! 

Hoje minha cama está vazia. Mas ela nem sempre está vazia... Só que, mesmo cheia, não fica quente de jeito algum. Ou nunca ficará... Te liguei com uma desculpa esfarrapada, é verdade. Eu não te esqueci e não vou esquecer jamais. Não é parte de nenhuma doença esse revelar. É parte da minha sanidade. Eu posso ser feliz com um mundo inventado - eu nasci para inventar. Escrevo sobre vidas e reinvento a minha o tempo todo. E não tem nada que me traga mais felicidade do que relembrar o que vivemos.... 
Me desculpe, mais uma vez, por evocar um passado presente. Eu vou te amar pra sempre. Intensamente. Mas vou amar um ser que não existe mais. Um brinde ao presente futuro. Ou seria futuro presente?
 
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