Aquele que procura faíscas...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Mais um que vai

Banksy
Senti frio e resolvi olhar o calendário. 
17 dias. 
É o que falta para mais um ano ficar para trás. Levanto para fazer um café e noto que a coluna reclama. Dói há dias num misto de estresse e falta de exercício, mas o frio não me ajuda. Desculpa esfarrapada, eu sei. Aproveito para ligar o aquecedor e no caminho de volta para a mesa de escrevinhar não sei por que lembro-me de meu pai. Acho que é só saudade. E em seguida surge o pensamento que as pessoas têm muito medo de morrer, sim, mas têm muito mais medo de viver. Paralisadas pelo desconhecido se trancam dentro de seus corpos e não deixam a alma respirar. Tenho medo da morte, mas tenho sede de viver. Viver o máximo que puder, para além dos meus limites. Sem fronteiras. Os pensamentos confusos se embaralham. Executo várias tarefas ao mesmo tempo: leio e-mails da família, textos de amor, denúncias de falcatruas políticas, procuro aluguéis mais baratos e admiro pinturas de séculos passados. O café me dá um pouco mais de energia e a cabeça começa a funcionar melhor. Quem sabe amanhã eu não corro na praia?
 
Para a seleção da Oficina Compartilhada

sábado, 10 de dezembro de 2011

Joia Rara









Minha vida é única:
Singulares momentos.
Aqui não tem espaço para nada que já foi feito um dia.
Repeteco: o consolo dos medrosos. O alívio dos babacas.
Entro de cara nessa empreitada especial de ser eu mesma.
Faço cada momento valer a minha exclusiva existência.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Falar continua sendo fácil

Deixei as fotos da minha ex com meu melhor amigo. E minha coleção de pornografia também. Motivos diferentes, mas com a mesma função: tentar engrenar num novo relacionamento. Estou saindo com a Duda há 1 ano e meio já. Quando fizemos 7 meses ela disse que se incomodava com as revistas de mulher pelada no banheiro e os filmes pornôs na minha estante do quarto. Achei que era insegurança, mas minha amiga Carlinha disse que não, que tem mulher que não gosta mesmo. Continuei sem entender. Acho que pornografia apimenta o relacionamento, dá ideias boas ao casal. Quebra o gelo de experimentar coisas novas, sabe? E pra falar a verdade, o que é que tem de mais?! Estou num relacionamento estável com a Duda porque assim desejo.

Enfim. Não vou perder o fio da meada porque estou aqui mesmo é pra falar das tais fotos da minha ex, a Bia. Não tive coragem de jogar fora. Pois é.... Ela foi minha terceira namorada e a primeira (e única) que amei de verdade. Achei que fosse ser a mulher da minha vida e acabou não dando certo. Perguntei pra Carlinha o que ela achava de eu ainda ter fotos da Bia e ela se inflou toda. Disse ser um absurdo, que eu estava namorando há 1 ano e meio e que eu já devia ter feito uma faxina geral, nas lembranças físicas e na cabeça. Mas aí aconteceu uma coisa engraçada... Fui tomar um vinho depois do trabalho na casa da Carlinha e no meio da caixa das fotos de família tinha um álbum só com fotos de ex dela... Engraçado... No fiofó dos outros é refresco, né?
Moral da história: falar continua sendo fácil e conselho ainda não é vendido porque realmente não presta pros outros se não valeu pra você.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Infinitivo

Se rezar faz espantar eu não sei
Madrugar para Deus ajudar também não provei
E nem sempre a espera alcança
Nessas horas é melhor
Ajoelhar para gozar
Cantar para dançar
E sorrir para não chorar.


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sábado, 26 de novembro de 2011




É aquele que fica, indisfarçável,
Colado na cara sem graça
Amarelo ovo, amarelo gema,
Amarelo farsa
E no desespero,
O portador nem disfarça
Veste o horror
E abraça a desgraça




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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Zzzzzzzzzzzzz

Não queria dormir de jeito nenhum. Lutava contra o sono com todas as suas forças e fazia pirraça na sala de estar. Quando já estava praticamente sendo arrastada para o quarto, o telefone tocou e correu para atender. Excelente desculpa para fazer um pouco mais de cera.

Era sua avó.

- Oi filhinha, tudo bem? É a vovó.

- Não quero dormir... (Disse, miando, a pequena.)

- É, filhota, tá meio cedo mesmo pra você dormir, né?

- Vó, não quero dormir... (O miado ficava ainda mais melado e ininteligível.)

- Vá pro seu quarto, querida. Obedeça à sua mãe. Peça à ela um filminho, assim você vai descansando até dar vontade de dormir. Que tal Alice no País das Maravilhas, que você adora?

- Huummm.... (E passou o telefone para o adulto mais próximo.)

Saiu da sala inconformada. Não estava com a menor vontade de dormir. Por que é que tinha que ir para o quarto? Por que não podia ficar ali mais um pouquinho? Estava tão divertido ouvir as conversas dos adultos na sala...

A mãe andava atrás dela, dando palavras de ordem: “Troque de roupa!”, “A camisola limpa está na cadeira!”, “Vai escovando os dentes enquanto eu vou pegar um pouco mais de vinho pro seu tio!”, “Não esqueça de...”. E ela se desligou do blábláblá, porque já não estava mais interessada. Queria ficar na sala, ou então nem daria ouvidos.

Vinte e cinco anos mais tarde o ocorrido veio à cabeça logo após ter colocado a pílula de melatonina na boca e ajustado o travesseiro entre as pernas - hoje também não estava com a mínima vontade de dormir. Não queria recorrer ao Rivotril, apesar da insistência médica. “Esses doutores hoje em dia não passam de traficantes de jaleco.”, pensava.

Que saudades tinha da sua avó.

Em busca de vestígios

João 8:7 = E, como insistissem, perguntando-lhe, 
endireitou-se, e disse-lhes: 
Aquele que de entre vós está sem pecado 
seja o primeiro que atire pedra contra ela.
 
Minha cabeça cai num abismo e uma das outras assume o controle. Quem é essa? Me pergunto no dia seguinte... Tento buscar alguma fagulha de pensamento no fundo do poço e só o que vem é a frase do pobre coitado, pensando alto "Você é muito linda, o beijo que você me deu...".

É claro que ele não estava entendendo nada. Eu também não estava...

O que uma garota como eu estaria fazendo com aquele estranho num motel barato da Praça Mauá? Provavelmente fugindo. De mim... Dele...

A primeira vez tinha classe. Acordei em Laranjeiras, piano ao longe... Longe?!?!? Não!! Bem perto. Ele parou de tocar, disse que tinha café, e eu atordoada só conseguia dizer que estava atrasada - e estava mesmo, era a estréia do meu primeiro projeto solo. Quando eu voltei do banheiro ele perguntou: 

- Você perdeu alguém?

- A gente vive perdendo, né? 

- Ontem você estava correndo risco de vida...

- Você é um anjo... Como é que eu faço pra ir embora?

- Você está em Laranjeiras, é só descer.

- Obrigada...

- Tchau....

Podia ser pior, e acabou sendo. Praça Mauá, sem o menor vestígio de memória. Eu já perdi alguém e deste jeito vou acabar me perdendo também.

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